quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Versalhada






VERSALHADA


1.
Para a frente
Que atrás
Vem gente
Sem paz
Que mente
Pelos nós
Dos cós
Ou cus


2.
Era um osso
Duro
De roer
Com um furo
Para se beber
O tutano
Pelo cano

 
3.
Não pedi
Para nascer
Nem quero
Morrer
No intervalo
Quero comer
Até o falo
Fazer calo


4.
Eu quero uma palavra
Que não diga nada
Que nem seja bela
Uma palavra que caiba
Na minha chinela
Uma palavra amarga
Como uma mijada
Uma palavra gostosa
Como uma cagada


5.
Brilha sobre os homens
A sua imortalidade
É do tamanho da sua fome
E da sua causalidade

 

 

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

CHAPEUZINHO ROSA





CHAPEUZINHO ROSA

  

Chapeuzinho caminha cantando na floresta
com uma vontade danada de dar para o lobo.

O lobo já tinha comido a vovó uma pá de vezes.
Chapeuzinho morria de inveja, ai que lombriga.

O lobo ficou deitado na cama como se fosse
uma velhinha. Respondia com delicadeza, velhice
e doença a todas as perguntas de Chapeuzinho.
 
Por fim foi a sua vez de perguntar: – Dá pra mim?
Chapeuzinho deu e viveram felizes para sempre.

 
 
 

 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

self

                                                                                                                                           Darkly-Satirical-Paintings-03-634x447



self
 
sou eu mesmo
não um outro
 
não narciso
mas um anti
 
sou no espelho
o self portrait
 
 
 
 

sábado, 2 de novembro de 2013

FINADOS


Hoje é dia de finados
Você passeia pelo cemitério procurando meu túmulo

Choveu faz sol o dia está agradável
Você sente o perfume da morte

São as flores são as velas é um indefectível
Cheiro de carne que já não é

A carne dos mortos engorda a terra
E a terra é sempre magra

Fende-se parte-se em mil ranhuras
Já não se sabe o que é terra o que são ossos

A terra protesta os túmulos protestam
Muita festa e muita tristeza se fundem

Somente você não está triste
Você sabe que eu não estou em nenhum desses túmulos

Você procura o meu túmulo por procurar
Por uma diversão perversa

Eu deveria estar aí
Eu deveria estar embaixo da terra

Eu deveria ser um punhado de ossos
A minha alma

A lembrança da minha presença
Fogo-fátuo espiralando-se no ar

A minha presença gorda no mundo
Dilui-se nas ruas do cemitério

Onde não estou
Você está sorrindo para o meu túmulo etéreo

A minha ausência estúpida
Ainda não é a hora do olvido

As águas passam debaixo das pontes
O vento assobia em algum sótão impalpável

Estou no sótão estou entre os afogados
Sou um homem entre os homens

Uma bunda ainda me excita
A língua o beiço vermelho

A mulher me justifica
Me derruba me anula

Você é sábia
O olhar conhece

As unhas as garras o bico adunco
A mulher domina

O mundo inútil
O corpo inútil do homem

Já não conheço as trevas
Já apaguei as luzes todas e vejo

O que existe para ser visto
Pairo

Não tenho carência de prêmios
Meu pai apontava os mortos

Carregava os mortos no bolso da camisa
Do lado do coração

Meu pai me ensinava lições de morte
Com orgulho

Estes sãos os meus mortos como que dizia
E acarinhava cabelos e ombros íntimos

Os mortos não carecem de prêmios
O maior prêmio da vida é a morte

Eu tenho orgulho da minha morte
Galardão

Mel na sombra sorvo tanto sol
Anoiteço na teia de aranha

A invenção do dia
No corpo da mulher

Eu me entrego à abelha-rainha
A mulher me consome no jardim

No mar sem fantasmas
No meio da rua

Um escorpião me assassina
O corpo vibra

O corpo explode com o veneno
Amor é grande

Você passeia pelo cemitério
Para me lembrar

Meu corpo lhe pertence
A alma a vontade fraca

As suas palavras cantam
“Você morreu, cara”

“Cara” – Nunca ninguém assim
Declarou o seu amor

Nem era preciso
Ter voltado
 
Gregório Vaz



segunda-feira, 15 de abril de 2013

UM PÉ DE URTIGAS







UM PÉ DE URTIGAS


Plantei um pé de urtigas num vaso
na sala.
As folhas estão viçosas, brilham
com a luz.

Ainda não floresceu.
Espero ansiosamente as flores
rosadas
delicadas
apetitosas.

Enquanto não floresce, vou aguar
com devoção
o meu pé de urtigas.

As folhas verdes voltam-se
para o sol.
A luz é a essência das plantas.







sábado, 13 de abril de 2013

POEMA DA NECESSIDADE DUM DISCO VOADOR






Poema da necessidade dum disco voador


Eu preciso dum disco voador
para fugir deste mundo cruel.
Eu preciso urgentemente um disco voador
nem que seja de tábua, ferro velho ou papel.

Só um disco voador
para acabar com a minha dor.

Vambora, minha gente, vamo’ nessa
para fora deste mundo louco.
Tanta gente no mundo, tanta pressa,
tanta coisa para fazer,
que nem adianta morrer,
é pouco.
Só indo embora num disco voador.

Só um disco voador
para acabar com a minha dor.

Voa, dor! Voa, dor!
Vai embora minha tristeza
nem que seja
num disco voador.


Para Mimi Manzelli, que me pediu um poema dessa foto, e para Anna Clara de Vitto, com carinho.

J. C. Brandão





sábado, 6 de abril de 2013

A DESEJADA DAS GENTES









A DESEJADA DAS GENTES


Manuel Bandeira esperou a Indesejada das Gentes,
eu espero a Desejada, a da Foice, do Ancinho
e dos Seios de onde correm leite e mel.
Eu espero a sempre Bela, a Eterna que nos leva

para o Eterno. Eu espero a Morte Insofismável,
que vai me pôr diante de Deus como um fruto maduro,
como um cão que adora o seu dono, como a terra
e como as nuvens que passam no céu azul.

A minha casa está pronta como a de Manuel Bandeira,
os lençóis muito brancos estão estendidos na cama
e os meus livros estão espalhados pela casa iluminada. 





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